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AO VENCEDOR, A ASPEREZA DOS ABACAXIS

No 02 Janeiro 2017.

Insegurança jurídica, crise financeira e potencial para frustração das expectativas marcam retorno de Quinquinha ao cargo

PUBLICADO ORIGINALMENTE NA SEGUNDA-FEIRA, 02 JANEIRO 2017, ÀS 16:23.

 

Do que eles riem?  As condições da política e economia para o horizonte do mandato não recomendam entusiamos 

O poder é uma cachaça e, como tal, embriaga. Por vezes, tem potencial para despojar os que a ele se agarram dos requisitos mínimos da prudência e racionalidade - noutras cria a ilusão de que seus donatários estão um degrau acima do restante da humanidade. A História é rica em exemplos de homens que quebram lanças pela oportunidade do mando.

Saio do genérico para o caso específico do prefeito de Manga, Joaquim de Oliveira Sá, o Quinquinha do Posto Shell (PPS), que voltou ao gabinete principal da Prefeitura de Manga após batalha das urnas propriamente dita numa frente e, de outra, de cunho jurídico, até ser beneficiado por liminar do ministro Henrique Neves, do Superior Tribunal Eleitoral, em que a Justiça Eleitoral faz a negação da sua própria prescrição sobre os pré-requisitos que habilitam o candidato à disputa. Jogo jogado, só nos resta lhe desejar boa sorte. Manga merece e precisa. Se não, vejamos.

A atual insegurança jurídica que marca o início desta terceira gestão de Quinquinha na cadeira de prefeito de Manga nem chega a ser o maior dos desafios que o espera: é pouco provável que o Tribunal Superior Eleitora modifique substancialmente sua situação ao julgar o mérito da liminar. Sua condição de prefeito sub judice prevalece, mas não é o que determina seu futuro no cargo. Há mais em jogo.

Antes de continuar,  faço uma breve digressão para o registro de que o agora prefeito de Manga colocou o nome deste signatário na condição de réu em uma ação de investigação judicial eleitoral (Aije). O motivo? Filigranas. Não teria gostado de texto que escrevi aqui, em que comparei, no contexto da judicialização que o pleito tomara, sua ainda incerta vitória na disputa à Prefeitura de Manga como semelhante à de Pirro, aquela que envolve sacrifícios tais, capazes de apagar o brilho mesmo da conquista.

Meu artigo, segundo o prefeito, tinha a intenção não declarada de mudar o votos dos seus eleitores. Parece que fracassei nessa missão a que nunca me incumbi. Não será a primeira vez nem a última que à liberdade constitucional de imprensa sofre ameaças. Nem foi a primeira vez que o homem da camisa azul se valeu da Justiça, como se fora um Cavalo de Troia, para bater à minha porta. 

De volta ao tema central deste artigo, vale a lembrança de que, mais preocupante do que as brigas do prefeito com nas salas de audiências dos tribunais, é a situação da economia brasileira para o horizonte do seu mandato. Elas não são boas. O país deve parar de piorar entre este ano e o próximo, mas é pouco provável que volte, antes de 2020, às condições de vento a favor que marcaram os mandatos anteriores do novo prefeito de Manga -- entre 2007/2012. Para ficar em um só exemplo, o PIB chegou a crescer 7,5% em 2010, no auge do governo Lula, quando Quinquinha estava prefeito e surfou no boom das commodities. Emprego estava em alta, crédito fácil e dinheiro farto nos cofres do município. Tudo isso é passado.

Emprego, por sinal, será uma das grandes dores de cabeça do novo mandatário em Manga. Há pelo menos cinco candidatos para cada uma das poucas mais de 100 vagas de livre nomeação com as quais ele deve contar para acomodar seus correligionários. Governar, por vezes, é frustrar as expectativas. O que fazer com as pessoas que colocaram a camiseta amarela e foram às ruas, aquela militância antes de tudo fiel a si mesma, que se moveu pela esperança de que o candidato sorridente e sempre acessível seria incapaz de se transmudar no executivo frio, que apela ao legalismo incompreensível para justificar a negativa aos pedidos por uma oportunidade tão necessária e tão longamente esperada?

A seara da política também traz previsões de raios e trovões para a primeira metade do mandato de Quinquinha. Sua coligação elegeu apenas três dos noves vereadores da nova Câmara Municipal. Ontem, ele assistiu, de mãos atadas, à eleição do veterano Dão Guedes (PT) para a presidência da Casa. Dão Guedes é irmão do deputado estadual Paulo Guedes – seu arqui-inimigo na política local. Mas não é só. O PT deve continuar no comando do governo estadual pelos próximos dois anos. O Palácio Tiradentes destinará para Manga tratamento protocolar e institucional. Tudo muito diferente dos mandatos anteriores, quando o deputado Arlen Santiago (PTB) dava à Quinquinha a impressão de que era bem quisto na cozinha do tucanato mineiro.

O leitor que teve a paciência de ler até aqui, pode argumentar que nada disso importa. Deter o mando político do município vale por muitas missas no altar da política – os meios justificam os fins, na tradição maquiavélica. Também se pode dizer que as minhas previsões são de um ‘urubu’, de quem apenas torce contra. Na verdade, nem chegam a ser previsões; são construções de cenários amparados pela lógica das circunstâncias atuais. Elas podem mudar? Tomara que mudem. Que venha a bonança depois de tanta tempestade na vida do sofrido povo brasileiro, o manguense incluído. Mas também pode ser que não.

Admitamos que a ambiência nacional melhore. Ainda assim restaria um problema de outro naipe para o novo prefeito. Para ganhar as eleições e depois a briga judicial para conseguir a diplomação, Quinquinha foi obrigado a se render a um leque de alianças de difícil acomodação no mirrado orçamento municipal. Não preciso citar os nomes, meus 17 leitores sabem de quem se está falando aqui. Também neste caso, a situação é oposta aos mandatos anteriores, quando o então prefeito reinava sozinho. Desta vez, e se quiser governar com um mínimo de tranquilidade, vai precisar ceder nacos da administração para os companheiros de ocasião – aqueles que não vão hesitar muito em pular fora do barco ao primeiro sinal de dificuldades.

Um ponto especialmente sensível para Quinquinha será a convivência com o vice-prefeito, Luiz do Foguete (PRB). O temperamento de ambos pode ser um indicador de que são pequenas as chances de que a lua de mel desses dias iniciais perdure ao longo do quadriênio. Luiz do Foguete carrega no íntimo a crença de que sua adesão ao projeto do retorno de Quinquinha ao cargo foi a grande responsável pela do companheiro de chapa. O atual prefeito, por seu turno, faz profissão de fé na hipótese que o vice é apenas o apêndice legal, a parte acessória que se deve cumprir em obediência à Lei Eleitoral.

Luiz do Foguete, nunca é demais lembrar, foi eleito vereador pelo PT e trocou de camisa sem a menor cerimônia quando teve seus desejos negados pelo antigo regime. Alçado à condição de vice-prefeito, ele sonha com voos mais altos. Um direito seu. Se fizer um bom governo, a despeito de tantos senões, Quinquinha tem o horizonte de mais um mandato sobre a mesa. Resta saber se Luiz do Foguete está disposto esperar tanto tempo para ver o sol brilhar em sua direção. Turbulências podem vir daí.

Há um ano, o agora vice-prefeito sequer chamava Quinquinha pelo nome. Preferia ‘aquele sujeito’ para nominar o gestor que assinou o decreto de desapropriação de um lote seu ali pelas bandas da futura escola técnica federal. As aparências certamente serão mantidas até o limite do aconselhável caso a receita do bolo desande. A aposta da oposição é de que será pouco provável que aqueles corredores apertados e em cruz da Prefeitura de Manga comportem por muito tempo os egos de suas excelências prefeito e vice. A conferir.

Peço permissão aos meus 17 leitores para concluir este artigo com uma citação que vale por uma boa reflexão. Recorro novamente a Machado de Assis (citado outro dia aqui), que colocou na boca de um dos seus principais personagens, Quincas Borba, a filosofia fictícia que batizou de humanitismo. Texto imperdível do nosso melhor escriba, muito útil para explica a ‘guerra’ que se travou ao longo de 2016 na política manguense. Não há empate possível em disputas eleitorais, mas suponha que os votos em disputa fosse o campo de batatas descrito por Machado:

‘Ao vencedor, as batatas’

“Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma delas; mas, rigorosamente, não há morte, há vida, porque a supressão de uma é princípio universal e comum. Daí o caráter conservador e benéfico da guerra. Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais feitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.
- Mas a opinião do exterminado?
- Não há exterminado. Desaparece o fenômeno; a substância é a mesma. Nunca viste ferver água? Hás de lembrar-te que as bolhas fazem-se e desfazem-se de contínuo, e tudo fica na mesma água. Os indivíduos são essas bolhas transitórias”.

Feita a ressalva de que falo da morte não em sentido literal, do não existir material, mas sim do metafórico, da morte política por fadiga de material e falta de votos. Dito isso, volto ao início para lembrá-los que o poder é uma cachaça. Ao fim e ao cabo, os homens se lançam a campo para batalhas vãs, pois tudo se resume a essa insustentável leveza das bolhas provisórias – para juntar na mesma frase Machado e Milan Kundera. Ao vencedor, as batatas. Prefeitos em início de mandato se entregam à cansativa tarefa de colocar seus agregados no lugar da velha turma, que até dias atrás lotavam os gabinetes do poder. Nesse sentido, troca-se seis por meia dúzia. Quinquinha volta ao poder e ganha a condição de vidraça. Nestes tempos intranquilos em que a que política deixa de ser arte, para ganhar um quê de maldição os estilingues estão por todo lado. Ali do lado. 

Comentários  

0 #4 RODRIGO LACERDA CARV 21-01-2017 19:00
Parece que depois que Quinquinha tomou posse acabou seu assunto, jornalismo de perseguição !
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0 #3 Wilson Novaes 06-01-2017 00:01
AO VENCEDOR, A ASPEREZA DOS ABACAXIS.
E AOS PERDEDORES???
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0 #2 Paulo Ricardo 05-01-2017 11:03
Para o pensador italiano,"Os fins justificam os meios". Mas os homens livres e de bons costumes preferem o pensamento grego de Aristóteles que diz "As virtudes estão nos meios". Sou um dos seus 17 leitores e sei que o novo prefeito não privilegiará uma "panelinha" de aliados em em detrimento de uma população de mais de 23 mil habitantes.E mais,se é uma habilidade que o Quinquinha não tem é a de agradar aliados,mas certamente daqui a 4 anos Manga estará melhor pois não teremos aquele outro tipo de judicialização comum aos desonestos.
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0 #1 OJUARA ARAUJO 02-01-2017 22:35
Quem procura o que não guarda, acha o que não quer.
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