Política

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PERDOAI-OS, MESMO SABENDO O QUE QUEREM

No 17 Novembro 2017.

Magnânimos por conveniência, Lula e Dilma dizem perdoar seus desafetos; mas quem os perdoará pelos seus muitos erros

A militância petista vive sua síndroma de Estocolmo particular desde que ficou patente que, para não perder representação parlamentar e evitar desaparecer aos poucos do mapa político nacional, Lula aceita de muito bom grado fazer alianças em vários estados com a turma que ainda há pouco acusava de golpistas. Síndrome de Estocolmo é aquele estado mental em que uma pessoa submetida a humilhações e intimidação por alguém, passa até ter afeição pelo seu algoz.

Na recente viagem que fez a Minas, o ex-presidente disse estar “perdoando os golpistas”, a turma que até outro dia os militontos petistas demonizavam - e com razão - nas redes sociais por terem apoiado o processo de impeachment da presidente cassada Dilma Rousseff no ano passado. Lula e seu PT também precisam se fazer mais palatável para aquela parcela da sociedade brasileira, chamados genericamente de 'eles', que elegeram como adversários e que agora podem dificultar a eleição dos filiados à legenda em caso de segundos turnos na eleição presidencial e nos estados.

Há alguns dias, a ex-presidente Dilma Rousseff mimetizou o chefe Lula ao dizer que é "hora de perdoar quem foi às ruas bater panela achando que estava salvando o Brasil, e que se deu conta que não estava". A ex-presidente, em cujo governo o país se meteu na mais perversa recessão da sua história também não vê nenhum problema em fazer alianças com o peemedebista Renan Calheiros ou com quem quer que seja.

Por honestidade intelectual, é preciso reconhecer que os governos petistas estiveram mais próximo do que nenhum outro do início do pagamento da enorme dívida social que as elites políticas de sempre contraíram com a gente brasileira. Mas também é preciso dizer que, por deslumbramento de alguns e puro banditismo de outros, esse mesmo PT criou as condições para anular - como estamos vendo nos dias atuais - as promessas de conquistas com as quais parcela da população pode finalmente sonhar. Está tudo aí.

Com a agravante de que Lula e sua turma também foram os responsáveis por dar ao PMDB de tantas quadrilhas a chance de ouro que nunca tiveram de abrir mão de vicejarem no entorno do Palácio do Planalto, onde comeram as sobras do banquete do poder por décadas, para finalmente tomar de assalto a cadeira presidencial e acabar com muitas conquistas recentes do país - inclusive o ímpeto saneador da agora estéril operação Lava-Jato.

O inimigo mora ao lado

O atual grau de acirramento da política nacional não parece indicar clima favorável do retorno do petismo ao poder central – a despeito da inegável liderança de Lula em todas as pesquisas. A presença do petista na cena eleitoral de 2018 traz à disputa dose extra de nervosismo, com já começam a precipitar dados de juros futuros e a cotação de moedas estrangeiras frente ao nosso real. O dito mercado, outrora tão simpático a Lula, agora dá sinais de que não tolera sua volta à cadeira presidencial.

São tempos de incertezas, portanto, e muito fértil para aventuras à direita representada pela candidatura do deputado Jair Bolsonaro, curiosamente considerada mais amigável aos tais mercado do que Lula – que comandou período prodigo em lucros dos grandes bancos e bolsas-empresários para todos os gostos.

Lula e Dilma acenam com o perdão a desafetos recentes, os que mesmos que anteciparam o fim do projeto de poder do lulo-petismo, pela conveniência do tempo de televisão maior durante a próxima campanha e acesso aos recursos do fundo eleitoral, sem os quais terá vida curta mesmo com toda história que acumula.

A estratégia só não leva em conta o sentimento de amor próprio da militância petista: convocada para denunciar o ‘gorpi’, a turma agora se vê perdida no fim de feira da ideologia, depois de sentir falta da reação dos seus líderes nas denúncias contra o presidente Michel Temer. Pior do que isso: vai às urnas de braços dados, onde for preciso, com os inimigos do verão passado. Resta dizer o óbvio: a temporada petista no poder reduziu a pó toda utopia que um dia o partido representou. Certas coisas não têm perdão.  

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